Elfos – Origem e anatomia da espécie
Elfos de Tolkien são diferentes dos elfos de outras mitologias, apesar de parcialmente baseados nelas. Os elfos de antigamente eram, em sua maioria, entidades ligadas a desgraças e sofrimento. Isso foi mudando aos poucos até chegar à visão moderna, onde elfos são coisinhas pequenas e bonitinhas… eca! Mas para entender melhor os elfos de Tolkien é preciso entender um pouco das antigas lendas e o que era um elfo baseado nelas. Então vamos dar uma olhada no que era um elfo para os nórdicos, os alemães, os islandeses e os ingleses:
Os elfos na mitologia Nórdica:
Nesta mitologia os elfos chamam-se Alfs ou Alfr, também chamados de “elfos da luz” – Ljosalfr. São descritos como seres belos e luminosos, ou ainda seres semi-divinos, mágicos, semelhantes à imagem literária das fadas ou das ninfas. De fato, a palavra “sol” na língua nórdica era Alfrothul, ou seja: Raio Élfico; dizia-se que por isso seus raios seriam mortais a elfos e anões.
O mitógrafo e historiador islandês Snorri Sturluson referiu-se aos anões (dvergar) como “elfos da escuridão” (dökkálfar) ou “elfos negros” (svartálfar) e referiu-se aos outros elfos como “elfos da luz” (ljósálfar), o que freqüentemente foi associado com a conexão dos elfos com Freyr, o deus nórdico do sol (segundo Grímnismál, Edda Poético). Snorri descreve assim a diferença entre os dois tipos de elfos:
“Há um lugar [no céu] que é chamado o Lar dos Elfos (Álfheimr). Seus habitantes são chamados elfos da luz (Ljósálfar). Mas os elfos da escuridão (Dökkálfar) vivem sob a terra e são diferentes em aparência – totalmente diferentes, na verdade. Os elfos da luz parecem mais brilhantes que o sol, mas os elfos da escuridão são mais negros do que piche. (Snorri, Gylfaginning 17, Edda em Prosa)”
Os elfos na mitologia Escandinava:
Na mitologia escandinava moderna, praticamente só existem elfas, que vivem em colinas e montes de pedras. As älvor (sing. älva) suecas são moças belíssimas que vivem na floresta com um elfo-rei. Têm vida longa e são de natureza jovial. São representadas como louras, vestidas de branco e, como a maioria das entidades no folclore escandinavo podem ser terríveis quando ofendidas. Nos contos, freqüentemente causam doenças. As mais comuns e menos perigosas são sarnas ou brotoejas chamadas älvablåst “golpe élfico”. Pode-se apaziguar as elfas com uma oferenda (de preferência, manteiga) posta em um “moinho élfico” – um costume talvez derivado do álfablót dos antigos nórdicos.
As elfas podem ser vistas dançando nos prados, principalmente à noite ou em manhãs brumosas. Se um humano observar a dança das elfas por umas poucas horas, pode descobrir que se passaram muitos anos no mundo real. Elas deixam um círculo onde estiveram dançando, que é chamado älvdanser “danças élficas” ou älvringar “anéis élficos”, e acredita-se que urinar neles causa doenças venéreas. Pisá-los ou destruí-los também é perigoso. Geralmente, os anéis élficos são formados por pequenos cogumelos, ou são áreas circulares onde a grama foi achatada.
Os elfos na mitologia Alemã:
No épico medieval alemão Nibelungenlied “A Canção dos Nibelungos”, um anão chamado Alberich tem um papel importante. Alberich significa literalmente “rei-elfo”, o que contribui para a confusão de anões com elfos já observada nos Edda. Através do francês Alberon, o mesmo nome originou o inglês Oberon – rei dos elfos e das fadas (fairies) em Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare.
No folclore alemão posterior à cristianização, os elfos passaram a ser descritos como entidades travessas que causam doenças ao gado e a pessoas e trazem maus sonhos. A palavra alemã para “pesadelo”, Albtraum, significa “sonho élfico”. A forma arcaica Albdruck significa “peso (ou pressão) do elfo”; acreditava-se que os pesadelos eram o resultado de um elfo sentando-se sobre o tórax do sonhador. Esse aspecto da crença alemã nos elfos corresponde em boa parte à crença escandinava nos mara e às lendas cristãs sobre íncubos e súcubos.
Os elfos na mitologia Inglesa:
A palavra elf do inglês moderno vem do inglês antigo ælf (pl. ælfe, com variantes como ylfe e ælfen). Originalmente, referia-se aos elfos da mitologia nórdica, mas também as ninfas dos mitos gregos e romanos foram traduzidas pelos monges anglo-saxões como ælf e suas variantes.
Elf-shot (ou elf-bolt ou elf-arrow, “flecha élfica”) é uma palavra encontrada na Escócia e Norte da Inglaterra desde o século XVI, inicialmente com o sentido de “dor aguda causada por elfos”, mas que depois passou a denotar pontas de flecha de pedra lascada, do neolítico, que no século XVII eram atribuídas pelos escoceses aos elfos e usadas em rituais de cura. Supostamente eram também usadas por bruxas (e, talvez, elfos) para causar mal a pessoas e gado. Tufos de cabelo embaraçado eram chamados elf-lock “madeixa élfica” e supostamente causados por travessuras dos elfos. Paralisias repentinas eram às vezes atribuídas a golpes élficos.
Já nos contos populares do início da Idade Moderna, os elfos são descritos como entidades pequenas, esquivas e travessas, que aborrecem os humanos ou interferem em seus assuntos. Às vezes, são consideradas invisíveis. Nessa tradição, os elfos se tornaram sinônimos das “fadas” originadas da antiga mitologia céltica, como os Ellyll (plural Ellyllon) galeses.
Os elfos na mitologia Tolkieniana:
Agora é que as coisas ficam interessantes. Elfos era um termo genérico usado por Tolkien, o nome original desta raça era quendi, que significa “oradores” pois eles foram as primeiras criaturas do mundo com o dom da fala. Mas o nome pelo qual foram conhecidos para sempre foi Eldar, que significa “povo das estrelas” pois haviam nascido quando não existia ainda o sol e apenas as estrelas iluminavam o mundo. Tolkien não foi um irresponsável quando criou o povo élfico. Existe uma metafísica profunda de causa e efeito em suas caracteristicas. Não foi o caso de simplesmente dizer “elfos são imortais” e acabou a discussão, mas sim de esclarecer o “porque” de serem imortais e como isso afeta seu comportamento. Os elfos de Tolkien eram fisicamente iguais aos homens. Não eram baixinhos nem gigantes, e embora tivessem uma altura média de dois metros, isso não era nenhum absurdo. A diferença física mais marcante em relação aos homens era sua perfeição, pois não tinham defeitos físicos, nenhum! Eram todos belos como modelos de capa de revista, sem exceções.
Mas isso todo mundo sabe só de ler os livros, então vamos partir para uma bateria de “perguntas mais freqüentes” sobre os elfos, ou pelo menos das perguntas que eu mais respondo:
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Os elfos são imortais e nunca morrem?
São imortais, e também não são. Os elfos nunca ficam doentes. Podem passar mais tempo sem comida ou bebida e se curam de ferimentos da noite para o dia. Se forem dormir com um braço quebrado e cheios de machucados, acordam no outro dia novos em folha. Mas eles podem morrer sim, seus corpos podem ser destruídos, e quando um elfo morre seu espírito vai para uma espécie de limbo chamado “Mansões de Mandos” onde espera que possa ser reencarnado em um novo corpo igual ao anterior. No Senhor dos Anéis aparecem elfos extremamente velhos. Elrond por exemplo, tem mais de 6 mil anos; Galadriel é ainda mais velha, com mais de 20 mil anos. Então na prática não é possível para um elfo morrer, já que seu espírito continua no mundo e seus corpos são refeitos. Mas aí entra a grande sacada de Tolkien, ele escreveu que “os elfos serão imortais enquanto o mundo durar”. Isso significa que quando o mundo acabar, ou quando literalmente a Terra for destruída, os elfos irão morrer junto com ela. Em nenhum lugar Tolkien nos dá uma data para esse cataclismo acontecer, mas existe uma lenda élfica que descreve o fim do mundo chamada A Segunda Profecia de Mandos que vale a pena ser lida.
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Os elfos não precisam dormir?
Pois é verdade, elfos não precisam dormir. Ao invés de dormir os elfos entram numa espécie de transe ou auto-hipnose, não existe um termo certo para definir essa condição. Eles podem caminhar nesse estado, falar, e nem precisam estar de olhos fechados. Além disso, o tempo que um homem dorme (digamos umas 8 horas) é muito maior que o tempo usado por um elfo para descansar, que dificilmente dura mais de umas poucas horas. Elfos se recuperam de um dia inteiro viajando correndo como loucos e acordam prontos para outra.
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Os elfos podiam enxergar o quanto longe?
A visão dos elfos era uma coisa inacreditável, nem com um telescópio os homens podiam competir com os olhos de um elfo. Um livro interessantíssimo, que recomendo, é The Science of Middle-earth de Henry Gee (Cold Spring Press, 2004). No capítulo “The Eyes of Legolas Greenleaf”, por exemplo, o autor deduz que a acuidade visual de Legolas (que consegue distinguir os 105 rohirrim, a cor dos seus cabelos e as pontas de suas lanças a cinco léguas de distância) é de cerca de 8 segundos de arco. Como o limite da acuidade humana é cerca de 12 minutos de arco, os elfos enxergam 90 vezes melhor que os humanos.
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Elfos crescem devagar?
Essa também é verdade, crianças élficas crescem mais devagar que as crianças dos homens, porém com mais rapidez em mente. Eles aprendiam a falar antes de completarem um ano de idade; e ao mesmo tempo aprendiam a andar. Ao final do terceiro ano, as crianças mortais começavam a superar os elfos rapidamente em estatura máxima, enquanto os elfos cresciam lentamente na primeira parte da infância. Os filhos dos homens podiam alcançar sua altura máxima enquanto os elfos da mesma idade ainda eram fisicamente como mortais de não mais que sete anos de idade. Os elfos não atingiam sua altura máxima antes de, no mínimo, cinqüenta anos, e algumas centenas de anos passavam antes que se tornassem adultos.
Agora voltando ao ponto, tudo isso é muito legal, mas não responde a pergunta que me fez começar essa coluna: o que era um elfo de Tolkien?
A resposta é a seguinte: os elfos criados pelo autor eram o seu ideal do ser humano. Era uma visão da humanidade sem as limitações que não nos permitem ser melhores do que somos. Eles foram criados para serem justos, sábios, belos, fortes e nobres como parte de sua própria natureza. Tolkien não fez os elfos fisicamente diferentes dos homens, apenas mais perfeitos, e isso é importante para notar que eles são o que poderíamos ser, o que deveríamos tentar ser como um ideal a ser atingido.
Uma das qualidades dos elfos que muitos nem se dão conta, é a sub-criação artística. Explicando: é a habilidade élfica de fazer alguma coisa com mais perfeição e rapidez que os homens. Tudo que os elfos faziam era belo como uma obra de arte; funcional como o trabalho de um engenheiro; e concluído rápido como uma bala. A limitação dos homens de “sub-criar” era frustrante para Tolkien, e ele fez os elfos muito superiores nisso.
Outra das limitações que tanto incomodavam Tolkien está bem na cara, mas assim mesmo escapa aos olhos de muita gente. É a imortalidade élfica. Tolkien achava a morte e o envelhecimento algo deplorável. Não poder continuar sempre trabalhando, evoluindo e criando obras cada vez mais perfeitas e artísticas é um injusto e cruel destino. Os elfos com suas vidas imortais podiam aprender, trabalhar, refinar e criar coisas maravilhosas durante milhares de anos.
Com tudo isso você já entendeu melhor o que era um elfo de Tolkien? Espero que sim, não quero que os confundam de novo com os elfos maus da mitologia nórdica, com os brincalhões da mitologia alemã, ou com os pequenos e fofinhos elfos de chapéu pontudo que se compra nas lojas de 1.99!
Autor: Daniel De Boni
outubro 15, 2010 às 3:26 am
muito bom, adorei esse site, é interessante, show de informação!!!